• O que é

O transplante de cabelo é hoje a cirurgia mais comum para calvície, para homens ou mulheres. Consiste em tirar fios de uma área do corpo, que chamamos de área doadora, e implantar em outra, que chamamos de área receptora.

Quando se retira cabelos de um local para colocar no outro, o nome correto é “restauração” ou “transplante capilar”. Porém, um dos termos mais conhecidos é o “implante capilar” – que acaba sendo usado inclusive por especialistas, para conversar com pacientes, devido à sua popularidade.

Quando algo é implantado, esse algo é artificialmente elaborado para ser ali inserido – por isso, o termo só estaria correto fios sintéticos estivessem sendo ali enxertados.

Já transplante é, literalmente, a transferência de um organismo para outro; pode ser de tecido ou órgão.

Existem duas técnicas para realizar a retirada de fios:

– A mais comum é chamada Transplante de Unidades Foliculares (FUT, em inglês). Nela, uma faixa de tecido do couro cabeludo repleto de fios é cortada e descolada da cabeça. A partir dela, são preparados enxertos menores, constituídos de um ou mais folículos;

– A outra é chamada de Extração de Unidades Foliculares (FUE, em inglês). Nela, cada unidade folicular é extraída diretamente do couro cabeludo com uso de uma ferramenta de punção, que faz um pequeno furo ao redor do folículo e puxa-o. A vantagem é não deixar cicatriz na área doadora. É a técnica mais indicada em pacientes com pouca elasticidade na área doadora e também quando não há uma área doadora com tanta concentração de fios, já que permite selecionar folículos aleatoriamente de uma região mais ampla.

Em muitos casos, é indicada uma combinação das duas técnicas.

Independente da técnica de extração, a implantação das unidades foliculares é feita da mesma forma: com uma ferramenta de punção, em um só movimento de furar (chamado de punch), é criado um microfuro no couro cabeludo e nele inserido o enxerto.

  • História da Restauração Capilar

Em 1939, o dermatologista japonês Dr. Shoji Okuda trabalhava com pacientes queimados quando teve a iniciativa de transplantar enxertos de pele de couro cabeludo sadio para as áreas queimadas. Ele notou que esses enxertos continuavam produzindo cabelos mesmo depois de transplantados.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele faleceu, sem ter considerado utilizar a técnica para o tratamento da calvície.

No começo dos anos de 1950, o dermatologista chamado Dr. Norman Orentreich, de Nova York, desenvolveu trabalhos na área, que foram rejeitados diversas vezes, pois os cientistas não creditavam em seus resultados.

Ele se tornou o primeiro médico do mundo a utilizar a técnica de transplante capilar para o tratamento de calvície – conseguiu comprovar que, quando transplantado, o cabelo mantém as mesmas características da área de onde foi removido.

Este foi o início do transplante capilar moderno.

Inicialmente, ele usava punches de 4mm a 5mm de diâmetro para remover fragmentos arredondados de pele contendo as raízes dos cabelos da área doadora. Depois, com o mesmo instrumento, fazia orifícios nas áreas onde esses enxertos seriam transplantados.

Cada fragmento tinha cerca de dez fios e eram transplantados em até 30 enxertos, ou seja, cada procedimento compreendia, no máximo, 300 fios de cabelo.

Com o tempo, os punches se tornaram menores. O lado negativo é que o dano nas raízes no momento da extração era maior, já que era maior a quantidade de incisões.

A partir dos anos de 1980, esse problema foi parcialmente resolvido com o uso bisturi para a retirada da área doadora. Em seguida, ela era dividida em fragmentos com o ajude de lupas – eram os mini e micro grafts.

Em 1994, surgiu a microscopia na cirurgia de transplante capilar – Dr. Brad Limmer, dermatologista de San Antonio, descreveu a técnica de separação das unidades com microscópio. Ao identificar que os cabelos não saíam um a um, mas sim em grupos de até três fios, ele sugeriu o nome de “unidades foliculares”.

  • Técnica FUT

A sigla em inglês vem do termo “Transplante de Unidades Foliculares”. Um trecho de pele é retirado do couro cabeludo com um bisturi, desta área a que os médicos chamam de “doadora”. As unidades foliculares são separadas e transplantadas para a área receptora.

Visualmente, o procedimento propicia um pós-operatório tranquilo, pois os sinais da cirurgia são camuflados. Em relação ao bem-estar, é possível que sinta incômodo na área doadora nos primeiros dias, já que uma cicatriz é ali formada.

Em cerca de nove meses, os fios transplantados já terão se tornado definitivos, e é então que se considera o processo como finalizado.

A principal desvantagem desta técnica é a cicatriz linear na área doadora, que impede o paciente de utilizar cortes de cabelo muito curtos.

  • Técnica FUE

A sigla em inglês vem do termo “Extração de Unidades Foliculares”. Retiram-se unidades foliculares de uma área doadora (regiões laterais e posterior do couro cabeludo, da barba e de outras partes do corpo) que são na área calva.

Cada unidade folicular é extraída individualmente.

O FUE é mais recente que o FUT – a primeira publicação científica é de 2002, enquanto que a técnica FUT existe desde o final da década de 1980. É, igualmente, um procedimento cirúrgico, devendo ser realizado somente por médicos.

Qualquer cirurgia resulta em cicatrizes, que podem ser mais ou menos visíveis. A qualidade da cicatriz resultante depende tanto da maneira como uma cirurgia é realizada quanto da cicatrização de cada paciente. No FUT a cicatriz é linear. Pode ser imperceptível (mesmo com cabelo muito curto) ou ser mais evidente em casos desfavoráveis. No FUE as cicatrizes são puntiformes. Da mesma forma, podem ser indetectáveis em alguns casos e evidentes em outros.

Se o procedimento for mal feito ou feito por pessoas sem a devida licença ou treinamento, podem surgir milhares de cicatrizes esbranquiçadas, e a área doadora pode ficar destruída.

  • Técnica Combinada

Ambas as técnicas têm suas indicações, vantagens e desvantagens. Cabe ao médico identificar a melhor opção para cada caso e, se não estiver habilitado para a realização de uma delas, deverá encaminhar ao profissional adequado.

Elas podem, no entanto, ser combinadas.

  • Técnica Robótica

Desde 2013, já está disponível no Brasil o procedimento com auxílio de robô.

Procedimentos robóticos são procurados devido à sua precisão – eles auxiliam os médicos em movimentos cirúrgicos difíceis e repetitivos.

O sistema disponível para transplante capilar é assistido por um computador, controlado pelo médico. Ele auxilia na retirada das unidades foliculares. É composto por um braço robótico guiado por tecnologias de imagens especiais, suportes para esticar a pele e uma interface de computador, pela qual o médio dispara o punch que colhe os folículos.

  • Técnica Preview Long Hair (fio longo)

Considerada uma das mais refinadas, trata-se do transplante folicular com fio longo.

Dr. Marcelo Pitchon, um dos fundadores da ABCRC, idealizou a cirurgia com fio longo em 2004 e, com a evolução da técnica, ganhou prêmio no Congresso da International Society of Hair Restoration Surgery, em 2006, em San Diego, Califórnia.

É considerada mais difícil de ser executada, mas permite visualização imediata do resultado parcial, melhor aproveitamento da área doadora e uma distribuição mais lógica da densidade capilar, sendo essa uma vantagem considerável.

Os fios utilizados têm de 4 cm a 10 cm e permitem também ao cirurgião obter uma angulação mais precisa e um posicionamento correto de sua curvatura. O paciente recebe alta sem curativos.

  • Megassessões

São os procedimentos que ultrapassassem 1.000 unidades foliculares.

Hoje, a cirurgia pode atingir de 2,5 mil a 3 mil unidades em uma única sessão, o que significa de  mil a  mil fios transplantados.

  • Outras áreas

Barba – quando a barba é rarefeita, é possível fazer o transplante de unidades foliculares com resultados naturais. Geralmente, a área doadora é a própria barba ou fios da região do couro cabeludo.

Cílios e sobrancelha – é possível direcionar o crescimento dos fios, criando um aspecto estético natural. Na sobrancelha, o procedimento é, geralmente, procurado por pacientes que fizeram depilação contínua por anos; também, por pessoas que passaram por algum acidente, tiveram cicatriz ou ainda alguma enfermidade. É muito usado para melhorar o aspecto da maquiagem definitiva. É dada anestesia local e não há necessidade de internação, nem pontos a retirar.

Pelos pubianos – o procedimento, a partir do couro cabeludo, é feito em casos de ausência congênita de pelos nesta região.

Tórax – a região doadora é a região pubiana por sua compatibilidade com a região do tórax. Pode ser, também, do couro cabeludo.

  • Fatores de Risco

Podemos pensar em cirurgia da restauração capilar como uma cirurgia menor em comparação aos principais tipos de transplante, como os de quadril ou de órgãos. Estas são cirurgias longas e complexas, enquanto o transplante de cabelo e outros tipos de cirurgia capilar são simples e têm se provado muito seguras.

No entanto, como em todas as cirurgias, quanto mais fatores de risco o paciente apresenta, maior a chance de complicações pós-operatórias.

Enquanto alguns fatores associados ao procedimento cirúrgico, muitos deles estão associados ao paciente e aumentam o risco de infecção pós-operatória, sangramento excessivo e cicatrização demorada ou problemática.

O cirurgião determinará o grau de risco relacionado ao paciente com base nas informações prestadas por ele em sua avaliação. Alguns fatores de risco importantes são:

– Uso prolongado do tabaco, especialmente o cigarro;

– Uso constante ou em grande volume de bebidas alcoólicas;

– Obesidade;

– Desnutrição, incluindo bulimia e anorexia;

– Uso de drogas imunossupressoras, incluindo corticosteroides e quimioterapia;

– Uso de alguns suplementos à base de plantas;

– Doença imunossupressora, como AIDS;

– Diabetes ou outra doença metabólica crônica;

– Doenças crônicas do coração, fígado, rins, pulmões ou sistema gastrointestinal;

– Infecções de pele crônicas ou recorrentes, tais como furúnculos;

– Infecções bacterianas ou virais crônicas ou recorrentes;

– Medicamentos que diminuem a capacidade de coagulação do sangue, tais como anti-inflamatórios;

– Condições que requerem antibióticos profiláticos, tais como próteses de articulações artificiais ou válvulas.

Para a segurança do paciente, é essencial informar o médico de forma completa e honesta sobre fatores de risco, mesmo que se sinta desconfortável discutindo o assunto. A presença destes fatores dificilmente impede o paciente de receber tratamento cirúrgico para restauração capilar, mas é importante que o médico tenha ciência do risco, para que possa tomar providências necessárias e, em alguns casos, adaptar o tratamento para evitar complicações.