“Conheci o Dr. Ivan Pereira quando era R1 em Cirurgia Plástica no Serviço do renomado e queridíssimo amigo Ewaldo Bolívar, em Santos. Ivan fez um fellow em Queimaduras na UTQ Prof. Ivo Pitanguy do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimados da Rede FHEMIG, onde eu era o Chefe. Desde então, pude comprovar o cirurgião plástico que viria a ser pelo interesse, comprometimento e compenetração que sempre demonstrou neste período. Frequentou, também, a minha sala de cirurgia, onde se iniciou na arte da Restauração Capilar que hoje desempenha com maestria.

De uma genética científica invejável, Ivan é filho do Dr. José Marcos Pereira, já falecido, dermatologista e uma das máximas expressões brasileiras em clínica do cabelo. Inúmeras obras e artigos compõem o histórico literário-científico do seu pai e irmãs, também dermatologistas e, como o pai, especialistas em clínica do cabelo.

Dr. Ivan inicia-se na árdua tarefa da formação de cirurgiões de cabelo com um Serviço de Residência que completará a formação de dermatologistas e cirurgiões plásticos que queiram se especializar em Restauração Capilar. Convido e recomendo os colegas a lerem a excelente entrevista que o Dr. Ivan concedeu ao nosso site.”

Dr. Carlos Eduardo Leão, presidente da ABCRC

 


Ficamos em uma sala ambulatorial com monitor cardíaco e carrinho de parada

 

O aprimoramento de profissionais consiste em uma tarefa complexa, árdua e muito gratificante. Profissionais que trabalham em hospitais-escola possuem uma grande responsabilidade de replicar o conhecimento e formar pessoas com habilidades em sua área de atuação, assim como trabalhar com suas características pessoais e relação médico-paciente.

Já há algum tempo é notado o interesse e uma procura constante por estágios e por pessoas dispostas a dispender seu tempo e ensinar sobre as mais variadas áreas de atuação na dermatologia e cirurgia plástica. Esta procura está não apenas limitada a brasileiros, mas também a jovens médicos de outros países. Visando esta demanda, desde 2016, o Hospital do Servidor Público Municipal forma um grupo de profissionais, a maioria voluntários, dispostos a criar um curso de educação continuada em Tricologia.

Após algumas adaptações, contam hoje com 12 alunos anuais e 6 colaboradores. O serviço é estruturado de maneira que são realizadas semanalmente atividades teóricas, como aulas, discussão de artigos, confecção de protocolos e trabalhos científicos, também de parte prática, no atendimento de pacientes ambulatoriais e pequenos procedimentos, como microagulhamento e infiltrações.

 


1ª foto: Não é uma sala de amplo espaço, mas com maca móvel e foco cirúrgico
2ª foto: Nossa equipe de auxiliares no FUT

 

Também em 2016, iniciaram uma parte cirúrgica, que inclui transplantes capilares, cirurgias restauradoras e ambulatório cirúrgico. A procura por este segmento aumentou desde então, incluindo outros interessados que não necessariamente gostariam de aprimorar-se na clínica ou que apresentam aptidão e foco para o transplante capilar.

 

A adição da Tricologia clínica

Decidiram por ampliar o programa desde 2018, desmembrando das atividades da Tricologia clínica. O programa cirúrgico conta com dois coordenadores (um cirurgião plástico e uma dermatologista) e cinco pós-graduandos, todos dermatologistas, assim como uma equipe treinada não apenas para auxílio no transplante como também focada no ensino.

“Hoje realizamos quatro transplantes de médio porte, com anestesia local, em sala apropriada para procedimentos cirúrgicos. As cirurgias iniciam-se às 10h e estendem-se até as 16h, nas quais os princípios das técnicas FUT e FUE são realizados. Contamos ainda com uma segunda sala, onde realizamos procedimentos menores relacionados sempre à cirurgia do couro cabeludo, como exérese de lesões benignas, cirurgias reducionais, enxertos, retalhos e teste de transplante, entre outras”, explica Dr. Ivan Pereira, que coordena o serviço com os Drs. Leticia Contin e Leopoldo Duailibe Nogueira Santos.

Os ambulatórios são realizados uma vez ao mês: todos os pacientes são examinados, são discutidos os planos cirúrgicos, analisados os pós-operatórios e decididos os tratamentos clínicos e adjuvantes pertinentes. “Durante este período é também realizada uma atividade teórica, composta de uma aula e discussão de temas relacionados a questões básicas como anatomia, pré-operatório, marcações cirúrgicas, anestesia, técnicas de FUT e FUE, outras técnicas de cirurgias de couro cabeludo”, afirma.

 


Fazemos aulas testes em pele de porco duas vezes por ano

 

A busca por um centro multidisciplicar

Com este programa, visam primordialmente uma formação completa do cirurgião capilar, preparam estes profissionais para que tenham uma visão global e um domínio de todas as técnicas, assim como uma boa visão da parte clínica, sabendo assim como abordar cada paciente individualmente.

“Esperamos ainda conseguir ampliar este programa e incluir também cirurgiões plásticos, tornando este serviço cada vez mais um centro multidisciplinar que possibilite uma diferenciação dos profissionais ingressando no mercado. Visamos também consolidar a posição de São Paulo como um importante centro de assistência, ensino e aprimoramento médico em transplante capilar em nível mundial. Para isso, esperamos poder contar também com a participação de todos os associados da ABCRC, que poderão fornecer valiosas contribuições durante este período de aprendizado fornecendo experiências próprias e compartilhando de suas técnicas e experiências”, registra Dr. Ivan.

Certamente, ele teve exemplo a seguir: seu pai, o dermatologista Dr. José Marcos Pereira, que dedicou a vida à área de Tricologia Clínica e a ensinar muitos estudantes, escreveu três livros sobre o assunto e deu aulas em todos os principais eventos da dermatologia. “É meu maior orgulho. Criou um filho e duas filhas, que seguiram os seus passos na medicina”, reconhece.

 


1ª e 2ª foto: Cabeças de manequins para testes
3ª foto: Colocamos todo tipo de material em uso durante o treinamento para o estagiário saber como funciona cada item

 

Confira, a seguir, entrevista que Dr. Ivan concedeu ao site da ABCRC.

 

No Brasil, o sr. acredita que falta um olhar mais cuidadoso da restauração capilar para a cirurgia reparadora, em detrimento da estética?

Acho que falar sobre a parte restauradora é sempre importante e bem legal, ressaltando que as doenças que afetam o couro cabeludo são muito estigmatizantes e exigem um cuidado específico no sentido de melhoria na qualidade de vida desses pacientes, que sofrem muito psicologicamente. Apesar de ser um problema rotulado como estético, pode comprometer profundamente o convívio social e bem-estar, levando a uma baixa autoestima e até dificuldade de inserção na sociedade.

 

Quais são as causas mais comuns que exigem a cirurgia reparadora em seu serviço – acidentes, doenças, atos de violência?

Temos uma incidência muito alta de pacientes com patologias capilares que cursam com quadros cicatriciais (alopecias cicatriciais). Como estamos inseridos em um serviço de dermatologia, que possui também um curso de aprimoramento em Tricologia clínica, acabamos recebendo muitos pacientes com estas características. Atendemos também vários pacientes de alopecia androgenética. Porém, traumas e outras doenças dermatológicas que afetam secundariamente os cabelos também estão presentes em nossas estatísticas.

 

O público atendido é predominantemente masculino? Em que diferem as intervenções feitas em homens e mulheres?

Atualmente, a incidência é parecida. Homens e mulheres possuem características anatômicas e também psicológicas que nos fazem adequar nossas intervenções sempre procurando conciliar expectativa e possibilidades.

 

Que conselho/convite daria aos profissionais que não atuam em hospital-escola, mas gostariam de colaborar com a formação de jovens profissionais?

Convidamos e encorajamos todos os interessados que desejam contribuir para a formação de profissionais mais jovens a participar deste projeto, doando parte do seu tempo e experiência em cirurgias demonstrativas ou aulas. Formando bons profissionais, estamos valorizando a medicina brasileira e colocando pessoas mais capacitadas no mercado de trabalho, acreditando que a formação completa de um profissional nunca será substituída por robôs ou pela massificação do processo. Aos interessados a participar, deixaremos os meios de contato.

 

De que forma a experiência oferecida a um jovem profissional pelo hospital-escola influencia ou transforma sua carreira?

Ensinamos um pouco, aprendemos muito mais. O trabalho em equipe engrandece e gratifica. Só chegamos onde estamos porque várias pessoas se prontificaram a nos ajudar no decorrer da vida. Passar isso adiante é um meio de retribuir e contribuir para a sociedade.

 

Como o sr. se sente sabendo que influencia positivamente a vida de pessoas (de médicos e de pacientes) com esse trabalho?

É extremamente gratificante e satisfatório ver um colega de trabalho recebendo uma influência positiva e futuramente colocar isso em prática em seu dia a dia. Quando você ajuda um colega de profissão, você não cria um concorrente e, sim, semeia gratidão.

Já em relação aos nossos pacientes, pelo motivo que escolhemos a medicina: amor à profissão e poder ajudar o próximo.